A “Cruzada das Crianças Verdes”

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Publicado em 12 de abril de 2019 por Geraldo Luís Lino

no Blog “Solidariedade Íbero-Americana”

Em 15 de março último, mais de um milhão de estudantes deixaram de ir às aulas, para marchar pelas ruas de quase 2 mil cidades de mais de 100 países, em protesto contra o que consideram a inação dos governantes de todo o mundo para conter as mudanças climáticas que acreditam ameaçar o seu futuro. Estas foram apenas as manifestações mais visíveis de uma sequência de iniciativas semelhantes realizadas nos últimos dois anos, a partir dos EUA e da Europa, destinadas a engajar a juventude no esforço de criação de um sentimento global de emergência para as questões climáticas. O objetivo é pressionar os governos nacionais de todo o mundo para implementar, o quanto antes, as pautas de limitações de emissões do Acordo de Paris, para abrir caminho para as soluções “de mercado” para a inexistente crise climática.

O ícone da campanha de mobilização é a adolescente sueca Greta Thunberg, de 16 anos, catapultada em poucos meses à condição de celebridade global e já indicada ao Prêmio Nobel da Paz. A sua ascensão retumbante resulta de uma bem planejada campanha de construção da imagem de paladina juvenil do clima, a qual fornece indicações sobre os reais interesses por detrás da agenda climática.

Em 20 de agosto de 2018, ainda com 15 anos, ela começou a faltar às aulas, para sentar-se na calçada diante do Parlamento sueco, em Estocolmo, com um cartaz onde se lia: “Greve de aulas pelo clima”. No mesmo dia, sua foto foi publicada na conta no Twitter da startup sueca We Don’t Have Time, com um comentário sobre a manifestação da “garota solitária”. Ligadas na conta da empresa, estavam outras cinco contas do microblog: Greta Thunberg, Jamie Margolin, Zero Hour, Climate Reality Project e People’s Climate Strike. Além de Thunberg, examinemos as demais:

– We Don’t Have Time: startup criada pelo empresário sueco Ingmar Rentzhog, cujo objetivo, segundo o seu sítio (https://wedonthavetime.org/launch/about/), é “criar uma plataforma de mídia social para o futuro, enfocada no maior desafio dos nossos tempos – o clima. Por meio da nossa plataforma, milhões de membros se unirão para pressionar líderes, políticos e empresas, para agir pelo clima”. Rentzhog é também presidente da ONG Global Utmaning (Desafio global, em sueco) (https://en.globalutmaning.se/), dedicada a “criar plataformas de colaboração entre a pesquisa, negócios, política e sociedade civil… para acelerar a transformação rumo a comunidades sustentáveis”.

– Jamie Margolin: adolescente de 17 anos (à época 16), residente em Seattle, EUA, fundadora da organização de militância climática juvenil Zero Hour (http://thisiszerohour.org/), que se autodefine como “um movimento liderado por jovens, para criar pontos de entrada, treinamento e recursos para novos jovens ativistas e organizadores (e adultos que apóiam a nossa visão), que queiram fazer ações concretas sobre as mudanças climáticas”.

– Climate Reality Project (https://www.climaterealityproject.org/): ONG criada em 2011 pelo ex-vice-presidente dos EUA, Al Gore, com a fusão de duas outras organizações criadas por ele, Alliance for Climate Protection e Climate Project. Sua missão autoproclamada é formar “líderes de realidade climática” em todo o mundo (mais de 19 mil até agora, entre eles Jamie Margolin), para “catalisar uma solução global para a crise climática, tornando a ação urgente uma necessidade em cada nível da sociedade”.

– People’s Climate Strike: conta temporária criada para auxiliar a coordenação de vários movimentos juvenis de protestos climáticos.

Em síntese, em seu dia de estréia, Greta já estava conectada com elementos importantes de uma vasta rede internacional de ONGs e indivíduos engajados na agenda climática global. Al Gore é um dos personagens centrais dessa trama e voltaremos a ele adiante. A partir dali, a promoção da adolescente sueca à posição de líder da “Cruzada das Crianças Verdes” foi impressionante:

– setembro de 2018: em Bruxelas, manifestação do movimento Rise for Climate na sede da União Europeia pelo, como parte de manifestações semelhantes ocorridas em dezenas de países; foi também uma das três indicadas para o prêmio Jovem Heroi Ambiental do Ano, pela filial sueca do Fundo Mundial para a Natureza (WWF-Suécia);

– outubro: marchas pelo clima em Helsinki e em Londres, onde juntou-se ao recém-criado movimento Extinction Rebellion na “Declaração de Rebelião”, manifesto que, entre outros itens, exige que os governos de todo o mundo adotem uma agenda de “emissões líquidas zero” até 2025; no mesmo mês, foi eleita pela revista Miljö & Utveckling (Meio ambiente e Desenvolvimento) a Influenciadora Ambiental no. 2 do ano na Suécia, atrás apenas de Rentzhog;

– novembro: conferência TEDx em Estocolmo;

– dezembro: conferência climática COP-24, em Katowice, Polônia.

Além disso, foi indicada para o Prêmio Clima Infantil, concedido pela companhia de eletricidade Telge Energi para crianças e jovens promotores do desenvolvimento sustentável, mas declinou da indicação, porque os finalistas teriam que viajar de avião a Estocolmo (ela e a família renunciaram às viagens aéreas). Recebeu a renomada Bolsa Fryshuset de Jovem Modelo do Ano e, em dezembro, a revista Time a apontou como um dos 25 adolescentes mais influentes do mundo.

Em janeiro deste ano, participou da reunião anual do Fórum Econômico Mundial, em Davos-Klosters, Suíça. Na ocasião, fez um curto discurso cuja mensagem se espalhou rapidamente por todo o mundo, sintetizando os principais objetivos da nova cruzada ambientalista global, do qual destacamos os seguintes excertos:

A nossa casa está pegando fogo. Eu estou aqui para dizer, a nossa casa está pegando fogo. De acordo com o IPCC [Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas], nós temos menos de 12 anos para poder desfazer os nossos erros. Neste período precisam acontecer mudanças sem precedentes em todos os aspectos da sociedade, inclusive uma redução das nossas emissões de CO2 [dióxido de carbono] em pelo menos 50%. (…)

E desde que a crise climática nunca foi tratada como uma crise, as pessoas simplesmente não estão conscientes das plenas consequências [dela] na nossa vida cotidiana. As pessoas não estão conscientes de que existe uma coisa chamada balanço global de carbono [carbon budget, no original], e que esse balanço global de carbono remanescente é tão incrivelmente pequeno. Isso precisa mudar hoje.

Nenhum outro desafio atual pode se comparar à importância de se estabelecer uma ampla percepção e entendimento público do nosso balanço global de carbono, que está desaparecendo rapidamente, que deveria e deve se tornar a nossa nova moeda global e o próprio coração da nossa futura e presente economia.

Os adultos vivem dizendo: “Nós devemos aos jovens dar-lhes esperança.” Mas eu não quero a sua esperança. Eu não quero que vocês sejam esperançosos. Eu quero que vocês entrem em pânico. Eu quero que vocês sintam o medo que eu sinto todos os dias. E, então, eu quero que vocês ajam (grifos nossos).

Em fevereiro, Greta voltou a Bruxelas para mais um discurso, desta vez, no Comitê Econômico e Social da União Europeia, onde dividiu o palco com o próprio presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker.

Em março, foi indicada ao Prêmio Nobel da Paz por três parlamentares noruegueses.

Nada mau, para uma adolescente que cursa a oitava série do Ensino Fundamental sueco e, apesar de a freqüência às aulas ser obrigatória até os 16 anos, já faltou a mais de um mês delas, em sua missão de líder da cruzada verde infanto-juvenil, para a qual a sua imagem e atuação têm sido cuidadosamente planejadas.

A carreira de Greta tem como mentores diretos Ingmar Rentzhog e sua mãe, a cantora lírica Malena Ernman, conhecida militante de causas ambientais, que em 2017 foi nomeada Heroína Ambiental do Ano pelo WWF-Suécia. Em 2018, ela e o marido, o ator Svante Thunberg, publicaram o livro Scener ur hjärtat (Cenas do coração), no qual relatam os problemas de saúde das filhas e discorrem sobre as “influências das mudanças climáticas” na vida da família. Curiosamente, o livro foi lançado quatro dias após o primeiro protesto de Greta e, na esteira do estrelato da jovem cruzada, já teve os direitos de tradução negociados com vários países.

Em maio de 2018, Greta foi uma das vencedoras de um concurso de redação sobre o clima promovido pelo jornal Svenska Dagbladet, um dos mais importantes do país. Em junho, o jornal deu grande destaque ao livro que seria lançado dois meses depois.

Em 1º de setembro, menos de duas semanas após a estréia de Greta, o jornal Dagens Nyheter, o mais importante do país, publicou um manifesto da Global Utmaning, sugerindo soluções financeiras para a crise climática: “Embora muitas das mudanças requeridas sejam tanto possíveis como lucrativas, vigorosas campanhas políticas são essenciais para ajustar preços, impostos e regulamentações, para que a transição para uma sociedade sustentável se torne atrativa, lucrativa e rápida.”

Entre os signatários do manifesto, estavam Rentzhog, Ernman e Anders Wijkman, veterano político sueco engajado em causas ambientais, que foi copresidente do Clube de Roma (2012-18), um dos principais think-tanks engajados na promoção do falacioso conceito dos “limites do crescimento” (leia-se interdição ao pleno desenvolvimento). Não por acaso, o Clube de Roma endossou plenamente a cruzada infanto-juvenil encabeçada por Greta Thunberg.

Mas o principal mentor da construção de Greta é Rentzhog, que a incluiu no conselho de diretores da We Don’t Have Time, juntamente com Jamie Margolin, como curadoras e assessoras especiais para a juventude, apesar de Greta ter renunciado ao posto, em fevereiro último. Os seus vínculos com as redes de Al Gore, como veremos adiante, indicam um projeto cuidadosamente articulado.

Entretanto, Greta é apenas uma entre os numerosos adolescentes que estão sendo engajados em organizações de ação climática, em um número crescente de países de cinco continentes. Em geral, os líderes dessas organizações são articulados, carismáticos, dinâmicos e se dedicam à sua causa com um fervor análogo ao dos cruzados infantis do século XIII, que atravessaram meia Europa com a intenção de libertar Jerusalém, na malfadada Cruzada das Crianças. A maioria dessas organizações é apoiada por entidades “de gente grande”, como o Climate Reality Project de Gore e seu programa de treinamento de “líderes de realidade climática”, Clube de Roma, WWF, World Resources Institute (WRI), Greenpeace, 350.org, Avaaz e outras. Ou seja, o movimento não tem nada de espontâneo – é mais um instrumento político da cúpula do aparato ambientalista internacional.

A financeirização climático-ambiental

A startup We Don’t Have Time, de Ingmar Rentzhog (ver nota anterior), constitui uma excelente porta de entrada para a multitentacular estrutura de empresas, fundos de gestão de ativos, fundações privadas e governamentais, ONGs e governos, engajada na financeirização do clima e do meio ambiente em âmbito global. Atuando nas mídias sociais, propaganda digital e comércio de créditos de carbono, a empresa ambiciona criar uma vasta rede de “usuários conscientes”, para estabelecer um sistema de pontuação de empresas, governos e outras entidades, baseado no falacioso conceito da “neutralidade de carbono”, análogo ao da conhecida plataforma social TripAdvisor.com, que avalia hotéis, companhias aéreas, agências de viagens etc., com base na contribuição dos seus milhões de usuários.

Um vídeo promocional da empresa afirma:

Os tomadores de decisões – políticos, companhias, organizações, Estados – ganham uma classificação climática (climate rating, no original) baseada na sua capacidade de se colocar à altura da iniciativa dos usuários. Conhecimento e opinião se reúnem no mesmo lugar e os usuários colocam pressão nos tomadores de decisões, para acelerar as mudanças.

As principais fontes de receita vêm dos atores comerciais que receberam qualificações climáticas e confiança elevadas na base de membros We Don’t Have Time. (…) O modelo de receita lembra a plataforma social do modelo de negócios da TripAdvisor.com, que, com seus 390 milhões de usuários, gera anualmente mais de 1 bilhão de dólares… Nós trabalharemos com parceiros estratégicos, como líderes de realidade climática, organizações climáticas, blogueiros, influenciadores e especialistas importantes na área.

Em uma entrevista à revista Acquisition International Magazine (#10, 2018), Rentzhog afirmou que o objetivo é “empoderar os nossos usuários para pressionar os líderes mundiais, para que eles se movam mais rapidamente rumo a um mundo livre de emissões e a soluções e políticas ambientalmente sustentáveis”.

Na mesma entrevista, sentenciou: “Nós queremos que custe mais, em termos de receita, apoio público e reputação, não se trabalhar para baixar as emissões e melhorar a sustentabilidade ambiental, enquanto aqueles que liderarem o caminho deveriam ser recompensados por isso. A nossa visão é criar uma corrida rumo à sustentabilidade ambiental e à neutralidade de CO2, fazendo disto a prioridade básica para os negócios, políticos e organizações de todo o mundo.”

Em essência: fazer da “neutralidade de carbono” a “nova moeda global e o próprio coração da nossa futura e presente economia”, para usar as palavras de sua protegida Greta em Davos, que os jovens cruzados do clima andam repetindo como um mantra ao redor do planeta.

Os conselhos de administração e consultivo da startup e da Global Utmaning, além de serem em grande medida intercambiáveis, têm em comum a presença de vários “líderes” treinados pelo Climate Reality Project, por sua vez, parceiro estratégico de ambas.

Além do Climate Reality Project, o outro braço de Gore no mundo dos “negócios sustentáveis” é o Generation Investment Management (GIM), fundo de investimentos em atividades nominalmente sustentáveis, fundado em 2004 em parceria com David Blood, ex-diretor de gerenciamento de ativos do megabanco Goldman Sachs. Sediado em Londres, com uma filial em San Francisco, EUA, o fundo tem como parceiras estratégicas ONGs de primeiro escalão engajadas na campanha climática, como o próprio CRP, WRI, Natural Resources Defense Council e The Alliance for Climate Protection.

Blood é também um dos diretores do WRI, organização fundada em Washington, em 1982, com filiais em seis países (inclusive no Brasil), que integra o “Estado-Maior” do movimento ambientalista internacional e é uma das coordenadoras da agenda da financeirização climático-ambiental. Seus colegas no colegiado diretor da ONG representam uma amostra emblemática da extensão dos interesses em jogo. Entre eles, destacam-se:

– Felipe Calderón, ex-presidente do México, presidente da comissão supervisora do projeto New Climate Economy;

– Cristiana Figueres, ex-secretária-executiva da Convenção Quadro de Mudanças Climáticas das Nações Unidas (UNFCCC), diretora da ONG The B Team, membro do Conselho Econômico sobre Saúde Planetária da Fundação Rockefeller;

– Jennifer Scully-Lerner, vice-presidente de administração de riquezas privadas do Goldman Sachs;

– James Gustave Speth, fundador do WRI, membro do Conselho de Relações Exteriores (CFR), conselheiro do Climate Reality Project e da 350.org;

– Andrew Steer, atual presidente do WRI, conselheiro para desenvolvimento sustentável do Bank of America e do grupo IKEA;

– Kathleen McLaughlin, vice-presidente da Walmart, presidente da Walmart Foundation;

– James Harmon, presidente da Caravel Management, membro do CFR;

– Afsaneh M. Beschloss, fundadora e presidente da gestora de ativos RockCreek, ex-diretora do Carlyle Group, membro do CFR;

– Joke Brandt, secretário-geral do Ministério de Relações Exteriores da Holanda;

– Jamshyd N. Godrej, presidente do Aspen Institute India e vice-presidente do WWF International;

– Caio Koch-Weser, ex-vice-presidente do Deutsche Bank, presidente da European Climate Foundation, membro da Global Comission on the Economy and Climate (NCE).

O grupo consultivo corporativo do WRI inclui os seguintes pesos pesados da economia mundial: Abbot Laboratories, Bank of America, Cargill Corporation, Caterpillar, Citigroup, Colgate-Palmolive, DuPont, General Motors, Goldman Sachs, Google, Kimberley-Clark, PepsiCo, Pfizer, Shell, Walmart, Walt Disney Company e Weyerhauser.

Em setembro de 2018, o WRI teve participação ativa na convocação da Cúpula Um Planeta (One Planet Summit), em Nova York, promovida pelo Ministério do Meio Ambiente da Alemanha, a William and Flora Hewlett Foundation, IKEA Foundation (os três importantes doadores do WRI), Grantham Foundation for the Protection of the Enviroment, Agence Française de Développement (AFD) e o fundo de gestão de ativos BlackRock, o maior do mundo (responsável por ativos superiores a 6 trilhões de dólares). Com a presença do presidente francês Emmanuel Macron e do executivo-chefe do BlackRock, Larry Fink, foi anunciada a criação da Climate Finance Partnership (CFP), definida como uma “cooperação inusitada entre organizações filantrópicas, governos e investidores privados, comprometidos a desenvolver conjuntamente um veículo de investimentos que vise a investir em infraestrutura climática (sic) em mercados emergentes. A parceria buscará fazer investimentos em um conjunto determinado de setores, inclusive energia renovável, eficiência energética, armazenagem de energia e transporte de baixo carbono e eletrificado, em três regiões, incluindo a América Latina, Ásia e África”.

Outra iniciativa do WRI é o projeto New Climate Economy, assim definido no seu sítio (https://www.wri.org/our-work/project/new-climate-economy):

(…) Uma importante iniciativa internacional que examina como os países podem atingir o crescimento econômico, enquanto lidam com os riscos das mudanças climáticas. É o projeto principal da Global Comission on the Economy and Climate, constituída por ex-chefes de governo, ministros das finanças e líderes nos campos da economia e dos negócios. A Global Comission foi fundada em 2013, por sete países – Colômbia, Etiópia, Indonésia, Noruega, Coreia do Sul, Suécia e Reino Unido. O projeto é empreendido por uma parceria global de institutos de pesquisa, da qual o WRI é o parceiro administrativo, e uma equipe base liderada por Helen Mountford.

Mountford é uma típica “ecotecnocrata”, tendo sido vice-diretora de Meio Ambiente na Organização para a Cooperação Econômica e o Desenvolvimento (OCDE) e atuado em ONGs no Reino Unido e na Austrália.

Entre os membros da Comissão Global, encontram-se Felipe Calderón, a ex-primeira-ministra da Nova Zelândia, Helen Clark, o ex-presidente do Chile, Ricardo Lagos, o executivo-chefe da HSBC Holding, John Flint, o ex-executivo-chefe da Unilever, Poul Polman, a executiva-chefe do Banco Mundial, Kristalina Georgieva, o secretário-geral da OCDE, Angel Gurría, o presidente da Shell, Chad Holliday, e outros.

Estreitamente vinculada às anteriores é a Blended Finance Taskforce (BFT) (https://www.blendedfinance.earth/), instituição criada em 2017, para “identificar barreiras ao uso efetivo e ao dimensionamento de financiamento misto”, permitindo “implementar um ambicioso plano de ação para aumentar investimentos privados importantes para os ODS [Objetivos de Desenvolvimento Sustentável]”.

Ainda sem equivalente exato em português, a expressão “blended finance” pode ser considerada como uma forma de financiamento misto que combina capitais de fundos filantrópicos e de investidores tradicionais. Segundo o sítio da BFT:

Nós estamos atualmente preenchendo cerca de metade dos requisitos de financiamento dos ODS. Há uma lacuna multitrilionária anual, que o setor público não pode preencher sozinho. A boa nova é que investir nos ODS faz sentido de negócios para os investidores. (…) Estima-se uma oportunidade econômica de 12 trilhões de dólares para o setor privado, nos próximos 10 a 15 anos. Mas precisamos ver um crescimento ainda mais rápido nos investimentos em infraestrutura – que hoje compõem menos de 1% dos portfólios dos investidores institucionais. Colocar na meta 1 trilhão de dólares em emissões de títulos verdes será instrumental para fazer com que isso aconteça. Mas a infraestrutura (tanto ações como dívida) pode ser uma difícil classe de ativos para os investidores – especialmente, em países em desenvolvimento. A mitigação de certos riscos para os investidores, “misturando” capitais públicos e privados, pode ajudar.

A “força-tarefa” é constituída por um grupo de 50 representantes de grandes empresas multinacionais, fundações privadas, órgãos multilaterais e ONGs criadas para promover as finanças climáticas.

Essas iniciativas constituem apenas a ponta do iceberg da vasta estrutura montada para assegurar a financeirização do clima e do meio ambiente em geral, cujos alvos primários são os países em desenvolvimento comprometidos com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas.

Os riscos da cruzada climática para o Brasil

A despeito da reorientação da política ambiental promovida pelo atual governo, o Brasil continua bastante vulnerável às pressões externas motivadas pelas questões ambientais. Isto se deve, basicamente, ao fato de o País não ter aproveitado a “troca de guarda” na política para promover uma imprescindível e ampla discussão sobre um novo projeto nacional de desenvolvimento, que pudesse contribuir para mitigar as profundas divisões internas geradas pelo último ciclo eleitoral e, principalmente, ensejasse uma convergência de esforços para se repensar os requisitos de reconstrução e requalificação da economia, diante dos enormes desafios ocasionados pela chamada Quarta Revolução Industrial e, não menos, pela mudança de época global em curso no planeta.

Apesar de mudanças relevantes na estrutura institucional dedicada aos temas ambientais (e indígenas), que tendem a reduzir significativamente a grande influência desfrutada pelo aparato ambientalista-indigenista na formulação das políticas setoriais, nas últimas três décadas, o País manteve a dependência de recursos externos para o financiamento de suas políticas federais, como os provenientes do Fundo Amazônia (Noruega), Green Climate Fund (Nações Unidas) e Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID), além de outros.

Ademais, há muitas ilusões sobre a perspectiva de o País apresentar-se ao mundo como uma “potência ambiental”, apta a cobrar da comunidade internacional pelos “serviços ecológicos” que, alegadamente, prestaria ao mundo – precisamente, um dos papeis que o ambientalismo internacional está preparando para os países em desenvolvimento, com a financeirização do clima e do meio ambiente, como visto neste memorando.

Da mesma forma, a aceitação acrítica e passiva de tal financeirização poderá deixar os países em desenvolvimento, ainda mais, à mercê dos desígnios de investidores internacionais “sustentáveis” para o financiamento dos seus planos de desenvolvimento e dependentes das classificações da sua “neutralidade de carbono”, estabelecida por agências privadas sobre as quais não teriam qualquer influência, como já ocorre atualmente com as transações com títulos soberanos e corporativos.

Em síntese, as lideranças brasileiras de todas as áreas – política, empresarial, acadêmica etc. – não podem dar-se ao luxo de ignorar tais articulações em curso, cujas repercussões para o País poderão ser determinantes para as suas perspectivas de retomada do pleno desenvolvimento.

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