10 perguntas para o general Okamura, comandante da Defesa Cibernética do Exército Brasileiro.

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Brasília recebe no período de 23 a 26 de abril de 2018 dois dos mais importantes eventos brasileiros de Cyber e de Defesa & Segurança reunidos em um só local: a Brazil Cyber Defence e a sétima edição da Conferência de Simulação e Tecnologia Militar.

Diversos eventos paralelos em várias partes do mundo, reunindo especialistas da área, realçam a importância DE ESTADO da Defesa Cibernética. A Geopolítica internacional é afetada por ações Cyber há pelo menos 20 anos, com especial destaque para a última década.

Segredos Militares e Informações Vitais podem ser roubadas. Sistemas nacionais críticos podem ser desligados ou tornados inoperantes. O caos resultante se expande em progressão geométrica, tudo isso sem um tiro disparado. O perigo é real e imediato.

O general-de-divisão Angelo Kawakami Okamura, comandante do Comando de Defesa Cibernético.

Para falar sobre os desafios após uma década da implementação oficial da Defesa Cibernética no Brasil, Tecnologia & defesa entrevistou o general-de-divisão Angelo Kawakami Okamura, comandante do Comando de Defesa Cibernético.

1- General Okamura, o senhor pode falar um pouco sobre a sua carreira no Exército Brasileiro até assumir o Comando de Defesa Cibernético?

Foi promovido ao posto atual em 25 de novembro de 2015. Ao ser nomeado para o cargo de Comandante de Defesa Cibernética, eu ocupava anteriormente a função de Coordenador Geral da Assessoria Especial para os Jogos Olímpicos e Paralímpicos RIO 2016, na cidade do Rio de Janeiro/RJ.  Cursei a Escola de Educação Física do Exército em 1987, o Curso de Guerra Eletrônica em 1989, a Escola de Aperfeiçoamento de Oficiais em 1992, a Escola de Comando e Estado-Maior do Exército em 1998, e o Curso de Pós-graduação Lato-sensu em Relações Internacionais, no ano de 2007. Comandei a Escola de Educação Física do Exército, sediada no Rio de Janeiro. A seguir, desempenhei as funções de Instrutor da Academia Militar das Agulhas Negras, da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército e do Centro de Instrução de Guerra Eletrônica de 1990 a 1994, período em que pôde realizar o Estágio de Análise de Inteligência no GSI, o Curso de Guerra Eletrônica de Não-comunicações nos EUA, e o Curso de Combate Eletrônico na Força Aérea Brasileira. Fui membro do Estado-Maior da 11ª Brigada de Infantaria Blindada, sediada em Campinas/SP, onde foi Oficial Adjunto da Seção de Planejamento e Operações, bem como Chefe da Seção de Pessoal. Também atuei como Observador Militar das Nações Unidas em Angola e Adido de Defesa e do Exército na Espanha. Como oficial General, comandei a 8ª Brigada de Infantaria Motorizada, Grande Unidade com sede em Pelotas/RS, entre 2012 e 2014, e fui o Assistente do Exército do Comando da Escola Superior de Guerra, nos anos de 2014 e 2015.

2- Qual é o status atual do CD Ciber nas Forças Armadas Brasileiras? Sua estruturação e operacionalização já está consolidada? Qual a próxima fase/linha de ação?

O Comando de Defesa Cibernética (Com D Ciber) é um Comando Conjunto, pertencente à estrutura regimental do Exército Brasileiro, responsável pela coordenação e integração das atividades de Defesa Cibernética no âmbito do Ministério da Defesa (MD), atuando como órgão central do Sistema Militar de Defesa Cibernética (SMDC) e está estruturado da seguinte forma:

– Estado-Maior Conjunto (EMCj), voltado para a doutrina e planejamento estratégico de emprego conjunto das Forças Armadas em Defesa Cibernética, participando da elaboração dos Planos Estratégicos de Emprego Conjunto das Forças Armadas (PEECFA);
– Centro de Defesa Cibernética (CDCiber), como o braço operacional para as ações de Defesa Cibernética;
– Departamento de Gestão e Ensino (DGE), voltado para as atividades de Gestão estratégica , ensino e capacitação de recursos humanos; e
– Escola Nacional de Defesa Cibernética (ENaDCiber) como centro polarizador de ensino e pesquisa de Defesa Cibernética.

O Comando de Defesa Cibernética (ComDCiber) foi criado em 2 de janeiro de 2015 e ativado em 15 de abril de 2016. Suas atribuições são planejar, coordenar, conduzir, integrar e supervisionar as ações cibernéticas no âmbito da Defesa, assim como orientar as atividades operacionais, de inteligência, doutrinária, de ciência e tecnologia e de capacitação no âmbito do Sistema Militar de Defesa Cibernética.

3- Quais os principais ensinamentos Ciber extraídos dos grandes eventos internacionais que o Brasil recebeu na última década?

– O trabalho colaborativo interagências nacionais e internacionais; o planejamento antecipado; a capacitação dos recursos humanos; fomento a indústria nacional de defesa voltada para ao setor cibernético.

4- O Brasil está se preparando para receber novas capacidades militares (Gripen, KC390, obuseiros M-109A5+BR, etc), e o componente digital/conectividade desses sistemas é algo primordial.

Como o CD Ciber atua para prover a segurança da informação do Estado Brasileiro, na atualidade? Tanto de sistemas bélicos quanto da informação sigilosa? Quais são as agências parceiras nessa empreitada?

– Não é atribuição do ComDCiber prover a Segurança da Informação do Estado Brasileiro. Em relação aos sistemas bélicos , o ComDCiber cumpre as ações cibernéticas previstas na Doutrina Militar de Defesa Cibernética.

5- Brasília vai sediar um importante evento Ciber, que ocorrerá em paralelo ao CSTM. Quais os principais aspectos que serão debatidos nesse evento? Poderiam destacar os principais palestrantes e seus temas?

– A Primeira Feira Internacional de Cibernética, Comunicação e Guerra Eletrônica (1st Brazil Cyber Defence) está prevista para ocorrer entre o período de 23 a 26 de abril, no Centro Internacional de Convenções do Brasil (CICB), localizado em Brasília, no Setor de Clubes Sul. O foco principal do evento é a exposição ampla de empresas de renome mundial, dos setores de cibernética, comunicações e guerra eletrônica, onde serão apresentadas ferramentas, soluções e tecnologias inovadoras.

Durante o evento também serão realizadas palestras e painéis, onde a idéia é trazer ao público assuntos que estão na pauta de todos os países, seja na área de segurança e defesa cibernéticas, marco legal, capacitação e gestão de talentos, proteção de infraestruturas críticas e outros.

Dentre os palestrantes convidados e já confirmados podemos citar:

Kevin Mitnick, um dos hackers mais famosos do mundo, autor de best-sellers traduzidos em mais de 50 países e 20 idiomas (A Arte da Intrusão, Fantasma no Sistema – autobiografia e A Arte da Invisibilidade) e atualmente é CEO e consultor de segurança.
Paul de Souza, Fundador / Presidente da CSFI (Cyber Security Forum Initiative) e suas divisões CSFI-CWD (Cyber Warfare Division) e CSFI-LPD (Divisão de Direito e Política). Co-autor do livro Estratégia de Inteligência Estratégica (Estratégia Nacional de Defesa Cibernética).

Demi Getschko, engenheiro eletricista formado pela POLI/USP, com mestrado e doutorado em Engenharia, é Conselheiro do CGI.br (Comitê Gestor da Internet no Brasil), Diretor-Presidente do NIC.br (Núcleo de Informação e Coordenação do Ponto br) e Professor Associado da PUC (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo). Foi membro da diretoria da ICANN (Internet Corporation for Assigned Names and Numbers) pela ccNSO (Country Code Names Support Organization). Em abril de 2014 foi eleito para o Hall da Fama da Internet na categoria “Conectores Globais”, com cerimônia realizada em Hong Kong.

– Durante a 1st Brazil Cyber Defence também haverá salas com workshops, salas temáticas e uma grande área de negócios para viabilizar um ambiente propício para captação de investimentos, reunindo em único ambiente grandes players da indústria, especialistas, órgãos de fomento do governo e privado, com participação de representantes do meio acadêmico e startups.

6- A digitalização das tropas é algo inevitável, e os requisitos de segurança são cada vez maiores. O tráfego dessa informação em redes, através de softwares como Combater e outros, é protegida?

– O tráfego de informações em redes é protegido pelo funcionamento adequado do Sistema de Defesa Cibernética, pelas infraestruturas específicas, pelo preparo e emprego dos recursos humanos e pela observação da doutrina militar de defesa cibernética.

7- Com o advento do SGDC e sua entrada em operação, isso vai trazer qual tipo de benefícios ao CD Ciber?

¬ Com o apoio do SGDC, os ataques que utilizam o espectro eletromagnético e o espaço cibernético são monitorados em tempo real, alimentando as atividades de inteligência de sinais e de operações em rede. Além disso, o registro dessas ameaças nos sistemas de monitoramento de inteligência e defesa passam a ser compartilhado em canais de comunicação por satélite em todo o território nacional. Esse compartilhamento por satélite restrito garante a integridade e reforça a restrição aos ataques cibernéticos de hackers, aumentando a segurança dos sistemas em rede e de comunicações nesse cenário cibernético.

8- O CD Ciber tem qual papel na segurança eletrônica/digital das Eleições 2018?

– O Chefe do CDCiber participa do Conselho Consultivo sobre Internet e Eleições, cuja a coordenadoria dos trabalhos cabe ao TSE, o conselho tem por finalidade desenvolver pesquisas e estudos sobre as regras eleitorais e influência da Internet nas eleições, em especial o risco das fake news e o uso de robôs na disseminação das informações.

9- Informação é algo que se tornou uma commoditie mundial. O CD Ciber promove intercâmbios? Existem trocas de informações entre centros semelhantes de países aliados/amigos?

– O ComdCiber participa do Foro Iberoamericano de Defesa e de Exercícios de adestramento , Exercício de DefCiber iberoamericano, e o Ciber Perseu de Portugal

10- O Brasil tradicionalmente é reputado como exercendo um papel de liderança política e militar na América do Sul. Qual é o nosso “ranking” em CD Ciber, no continente? Começamos primeiro e mantemos a dianteira?

– O ComDCiber participa colaborativamente, compartilhando as experiências adquiridas desde 2010 e nos Grandes Eventos (Rio + 20, Copa das Confederações, Jornada Mundial da Paz, Copa do Mundo 2014, Jogos Olímpicos e Paraolímpicos 2016) com os demais países da região, de forma que todos estejam melhor preparados para os atuais desafios do Terceiro Milênio, na dimensão cibernética.